Adulto também aprende


31/08/2012

Somos todos diferentes

Voltar a juntar alunos com necessidades próprias em ‘escolas especializadas’ é um grande retrocesso

O mundo contemporâneo é o mundo que celebra a diversidade. Construímos famílias com diferentes configurações, educamos filhos e alunos de todas as maneiras, temos escolas que praticam quase todos os métodos conhecidos (e outros nem tanto), a moda atende a todo o tipo de corpo e gosto etc.

Mas a diversidade nos incomoda tanto que acabamos escolhendo o semelhante. Mesmo sem perceber, nós procuramos o semelhante, o conhecido, o mediano. Evitamos o que escapa à média. Queremos ser diferentes, mas como a maioria.

Os mais novos, que já nasceram no mundo da diversidade, sabem conviver melhor com ela. Mas são impregnados com nossos preconceitos e estereótipos.

O fenômeno do bullying, que tem destaque enorme e por isso mesmo foi banalizado, é uma evidência da recusa da diferença. Intimidar aquele que escancara uma diferença é uma maneira de recusá-la, não é verdade?

No dia 28 de março a Folha publicou o depoimento de uma mãe que tem um filho de 16 anos com necessidades especiais. Um filho diferente da maioria. O depoimento dela deveria tocar a todos nós.

Ela nos conta sobre sua dificuldade em encontrar uma escola que aceite o seu filho como aluno.

Já conversei com várias mães que vivem a mesma situação. Seja porque o filho apresenta comportamentos que a escola não sabe como trabalhar, seja por ter um estilo de aprendizagem que exige um ensino diferente, essas mães são orientadas a procurar o que chamam de “escola especializada”.

Isso quer dizer que vamos juntar os diferentes para que eles não incomodem os que aparentemente -e só aparentemente- são iguais?

E ainda temos a coragem de afirmar que praticamos uma educação que é para todos e que nossas escolas educam para a cidadania?

Em pleno século 21, estamos retrocedendo no que diz respeito à educação escolar. Voltamos a uma prática que existiu pelo menos até os anos 1960. Até aquela época, alunos diferentes eram, obrigatoriamente, encaminhados para as consideradas escolas especializadas.

Você pode ver uma bela narrativa a esse respeito no filme “Vermelho Como o Céu”. Esse filme conta a vida de um garoto que ficou cego aos 10 anos e, por isso, foi encaminhado a uma escola que só atendia alunos com deficiências visuais.

Munido de muita indignação e coragem, o garoto recusou a segregação e construiu uma trajetória nessa escola que a obrigou a ver o que o garoto, cego, conseguia enxergar. Quando olhamos para o diferente e só conseguimos localizar a diferença, acabamos por anular todo um potencial. De convivência, inclusive.

Esse filme foi baseado na história real de vida de uma pessoa que se tornou um renomado profissional de som do cinema italiano. Imaginem o que teria sido a vida dele se ele tivesse se conformado com a escola especializada…

Precisamos ter a mesma indignação e a mesma coragem mostrada pelo protagonista do filme para que nossas crianças e nossos jovens que são diferentes, ou melhor, que mostram de imediato uma diferença, possam ter a mesma oportunidade que seus pares.

Eles precisam viver no mundo como ele é, viver nos mesmos espaços públicos que todos, inclusive o espaço escolar, e conviver com todo tipo de pessoa, não apenas com aqueles que também portam diferenças aparentes.

Todos somos diferentes. Se não respeitarmos as diferenças, se não aprendermos a conviver com a diferença, isso recairá, uma hora ou outra, contra nós e contra nossos filhos.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de”Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)

 

 

REUNIÃO DE PAIS DO DIA 26/10/2011

Nessa reunião foram tratados assuntos importantes. Só para lembrar, colocamos os slides aqui

REUNIÃO DE PAIS OUT.blog

Veja a síntese da apresentação da nossa reunião de pais em abrtil e o filme “criança a alma do negócio”. Para quem se interessar sobre o assunto criança e consumo pode entrar no site do INSTITUTO ALANA
reunião de pais abril – clique (apresentação no teatro)

assista este vídeo, algumas vezes

Veja aqui os principais assuntos tratados na primeira reunião do ano. Se não pôde comparecer a esta, não falte nas próximas.  Sua presença é INSUBSTITUÍVEL!
  1. Piscina: é imprescindível trazer o kit piscina: toalha, chinelo, maio, biquíni ou sunga e uma sacola plástica para colocar a roupa molhada. As crianças irão uma vez por semana e a professora avisará quando iniciar esta atividade; (colocar nome em todos os objetos).
  2. Não trazer alimentos para a escola. A criança tem duas refeições por dia e NUNCA deve trazer de casa salgadinhos, doces u lanches. O esquema é self service e isto estimula a autonomia da criança
  3. A criança na EMEI já deve ter autonomia sobre sua higiene pessoal. Caso ainda não tenha, cabe à família ensiná la a se limpar, pois a escola não tem como fazê-lo.
  4. Enquanto não tem uniforme a criança deve vir à escola com roupas confortáveis e não preparada como se fosse a um passeio. Vir de tênis, pois as sandálias e tamancos impedem a criança de participar de atividades importantes da escola.
  5. MANTENHA SEMPRE OS TELEFONES ATUALIZADOS. Os telefones de contato precisam estar atualizados, pois em casos de emergência os responsáveis precisam ser avisados.
  6. A agenda deve ser lida todos s dias. Ela é a principal forma de comunicação com a escola. Mande – a todos os dias e nunca arranque folhas.
  7. NÃO MANDE MOCHILAS DE RODINHAS, pois elas trazem riscos nas escadas e na movimentação pelo. Na mochila mande apenas a agenda, uma caneca e uma troca de roupa (para não constranger a criança em caso de emergência – xixi, coco, lama, etc.).
  8. Mantenha sempre o cabelo de seu filho limpo e no caso das meninas amarrados. Verifique a cabeça da criança todos s dias, pois só assim é possível evitar a contaminação pr piolhos. A escola não tem condições de fazer esta vistoria.
  9. Crachá de saída: é um documento como a identidade. DEVE SER TRAZIDO TODOS OS DIAS, mesmo depois de a professora já conhecer a família, pois caso ela falte, outra ficará em seu lugar e não conhecerá. É pela segurança das crianças.
  10. A relação de confiança com a família é muito importante. Caso a criança brigue ou se machuque não supervalorize. Acidentes também podem acontecer, pois a criança está aprendendo sobre seu corpo e como geralmente exercita poucos movimentos naturais da infância como saltar, pular, rolar, não tem muito equilíbrio. Cair pode fazer parte deste aprendizado. A criança está sempre sob a supervisão de um adulto, e é importante a parceria com a família não criticando a escola na frente da criança.
  11. Sempre que precisar falar com a Coordenadora, Diretora ou com a Professora, agende um horário. Não permaneça na porta da sala de aula, pois a professora precisa dar atenção a todas as crianças. Nunca suba para o corredor das salas de aula fora do momento de entrada e saída. Os horários de entrada e saída não são propícios à solução de problemas ou a busca de informações. Estas medidas são importantes para segurança de seus filhos na escola.
  12. NUNCA SE ATRASE PARA TRAZER OU BUSCAR A CRIANÇA. A escola não tem condições de responsabilizar-se pela criança após o horário. Além disso, a criança se sente abandonada ao verificar que todos os seus amigos foram embora e somente ela permaneceu.
  13. Dúvidas sobre o projeto: esclarecer ou pedir para falar com a coordenadora.

AMAR É PRESENÇA DE CORPO E ALMA. AMAR É OLHAR

Em primeiro lugar quero deixar claro que aqui quem fala é uma pessoa que possui 3 endereços de email, dois blogs, MSN, skype, orkut, facebook, twitter e algo mais. Portanto, NÃO coloco aqui manifestação contra o universo virtual. Quero apenas destacar que o palco da formação espiritual é mundo real. Três fatos que presenciei diretamente ilustram o que pretendo discutir. Primeiro, em uma viagem estava eu na Lan House, verificando meus emails, quando ao meu lado verifiquei três rapazes conversando com uma menina de no máximo 13 anos. Os rapazes faziam certos comentários inescrupuloss, enquanto a menina se despia com poses sensuais em frente à webcam, na “privacidade” de seu quarto sem saber por quem ou onde sua imagem era vista. O segundo fato foi quando recebi um recado gentil e generoso de uma menina em meu orkut. Entrei em sua página e me deparei com diversas comunidades de morte e suicídio, bulimia, auto flagelação. E, finalmente, certo dia foi verificado em uma escola de ensino fundamental que algumas meninas da sexta série entravam no banheiro, se fotografavam nuas com seus celulares e saiam exibindo aos meninos da classe. As famílias certamente não imaginam que tais coisas estejam ocorrendo com seus filhos, pois têm sua atenção voltada para outras prioridades.
É urgente privilegiar os contatos pessoais em família. O abandono do diálogo, das narrativas sobre a história de vida de cada um,a ausência dos conflitos saudáveis entre pontos de vista diferentes que surgem da convivência saudável, juntamente com a necessidade de buscar cada vez mais recursos materiais para satisfazer os desejos dos filhos, têm contribuído para formar pessoas individualistas, egocêntricas e sem resistência a frustrações. A falta de convívio social faz com que certos transtornos e comportamentos patológicos se naturalizem, já que nas comunidades virtuais só se encontram os iguais. Se na escola ou em outros ambientes da vida real a pessoa diz, por exemplo, que pratica auto flagelação, causará estranheza e repúdio a esta atitude por grande parte dos colegas. Mas no mundo virtual milhares se parecem com ela, trocam dicas de como fazer para que a dor seja maior, para que os pais não descubram. O problema é a internet? De modo algum. O problema somos nós. Desviamos nossa  foco. Ao invés de  oferecer boa educação, princípios éticos e valores humanistas aos jovens, gastamos tempo preocupados em comprar mais coisas, em trabalhar na rua e “descansar” em casa (inclusive dos filhos), Falamos e nos comportamos como se não tivéssemos passado ou futuro. Só o tempo presente do “vale tudo” . Sem notar,  abandonamos crianças e jovens, e o universo bidimensional das telas ocupa mais espaço na história de vida das novas gerações, do que as pessoas com as quais habitam.
Temos uma ilusão de segurança no espaço privado, enclausurado em nossas casas. Sem quintal, sem rua, sem colegas ou amigos há o isolamento e o “tudo para si”. Sem a convivência não se consegue ter experiência com a diversidade. Sem a diversidade não há humanidade. Para com viver (viver com e não ao lado de) é preciso dedicar tempo, paciência e persistência. Quando dizemos aos nossos filhos que não temos tempo para algo, de que estamos falando? De nossas prioridades. Não temos tempo de ir na reunião da escola, de ir ao parque, ao zoológico. Entretanto, nosso tempo é onde, não quando. Onde colocamos nossa atenção, lá está nosso tempo, nosso foco, nosso “tesouro”, nosso olhar.
Com um pouco de reflexão, poderemos girar a roda do destino em outra direção. Por que uma criança de oito ou nove anos e até mais nova, precisa de privacidade em uma casa, com seu pc, seu celular, sua TV?  De que afinal precisamos como espíritos eternos que somos? Precisamos uns dos outros.Cantigas e histórias para dormir, atenção e carinho, bons exemplos, amigos, comida de mães e avós, cafuné e olhos nos olhos. Essas são as ferramentas da alma, que não ficam obsoletas e não devem ser substituídas. Somente depois, todo o resto.

VEJA ESSE VÍDEO SEM FALTA!

Folha de São Paulo, 14 d junho de 2010

As crianças não gostam das versões amenas, elas anseiam por aventura

NÃO SABEMOS POR QUANTO TEMPO ESSES CONTOS VÃO RESISTIR A “HIGIENIZAÇÕES”

ILAN BRENMAN
ESPECIAL PARA A FOLHA

Numa sociedade cada vez mais acelerada, na qual a infância se vê banhada diariamente com linguagens mais empobrecidas de sentidos, a literatura, assim como a música e outras expressões artísticas humanas, sucumbem a olhos vistos a uma ideologia mercantilista, “coisificadora” e, principalmente, “politicamente correta”.
As cantigas e os livros infantis politicamente corretos querem nos dar respostas.
Não incitam desejos, os abafam. Querem apaziguamento, e não pensamento que nasce do conflito de ideias.
Buscam esconder e não desvelar. Têm ojeriza ao mistério, querem o plano, o reto, não o circular, não a espiral.
A literatura infantojuvenil de qualidade não garante a felicidade nem a conquista de bens materiais, mas possibilita que nossa mente se torne mais flexível e livre, capaz de compreender a complexidade do mundo visível e invisível, assim contribuindo para que possamos despertar de uma ilusão devoradora da nossa própria alma.
O ataque às histórias não é uma novidade do mundo contemporâneo. Alexander Afanasev (1826-1871), folclorista russo que coletou os contos da tradição oral de seu povo, teve de mudar à força suas versões dos contos de fadas russos para crianças, pois o sumo sacerdote da igreja local considerava os contos imorais.
Afanasev respondeu ao ataque assim: “Há um milhão de vezes mais moralidade, verdade e amor humano em minhas lendas populares que nos sermões proferidos por Vossa Santidade”.
Não sabemos por quanto tempo esses contos vão conseguir resistir a seguidas “limpezas” e “higienizações” executadas por novos autores. As alterações nos contos de fadas não pararam de ocorrer na nossa atualidade; a Baba Yaga russa, nossa familiar e temível bruxa, em algumas versões modernas não come mais criancinhas no desjejum, apenas fala sem parar. O Barba Azul, personagem assustador dos contos de Grimm, agora ressuscita suas noivas, aquelas mesmas que ele empalava no quarto proibido.
Versões atuais, preocupadas com a violência, excluem a comilança do lobo, a abertura de sua barriga e a sua morte. Simbolicamente, uma das partes que mais interessa à criança está sendo descartada. Por séculos, os textos dos irmãos Grimm e de Perrault vêm encantando multidões, e nunca ouvimos falar de uma criança que depois de ouvir a “Chapeuzinho Vermelho” tenha saído com uma faca na mão querendo abrir a barriga de alguém.
As crianças não gostam das versões amenas, elas anseiam por aventura, terror, sangue, humor, escatologia, violência, amor etc.
Aliás, há anos circulo pelo Brasil como autor de livros infantojuvenis e existe algo que se repete em todos os espaços que frequento. Quando pergunto às crianças que tipo de história ela querem ouvir, 90% das vezes elas pedem: “Terror! Histórias de terror!”. Podemos levantar duas hipóteses: uma é que elas são psicopatas, marginais sanguinárias em gestação; outra, que elas demandam histórias de terror, porque há algo nesse tipo de histórias que se comunica diretamente com o mundo interior dela. Sou favorável à segunda hipótese.
ILAN BRENMAN é doutor em educação pela USP, autor de livros infantis e contador profissional de histórias.

LAÇOS E RETRATOS: SEMPRE BOM LEMBRAR

REUNIÃO DE PAIS DO DIA 16/04/2010


LEVE COM VOCÊ O QUE FOI ABORDADO NESTA REUNIÃO. É NO DIA A DIA QUE APRENDEMOS AS COISAS IMPORTANTES DA VIDA.
Erotização infantil
A criança tem direito de viver a infância, brincar, ter amigos. Ela precisa aprender a se relacionar e movimentar, a se expressar, se comunicar. É nesta idade que os valores são formados. Não faz sentido perguntar a uma criança se tem namorado, ou estimular que ela se pareça com as apresentadoras da TV ou que imite cantoras que fazem gestos sensuais próprios da sexualidade adulta. Não podemos reforçar e permitir que a criança imite o modelo adolescente envolvendo maquiagens, roupas sensuais, mini blusas, sandálias de salto. As roupas precisam ser confortáveis, os brinquedos os mais simples como: bola, bambolê, bonecas de pano, corda. Encurtar a infância é um crime.
Alimentação
A alimentação da criança é coisa séria. Não se deve alimentá-la somente com produtos veiculados pela mídia como salgadinhos, bolachas, doces. Estes produtos não contêm os nutrientes de que a criança precisa e ainda prejudicam a saúde. Se algumas vezes levamos os filhos ao mercado, por que não levá – los à feira? O sofá ou a cama em frente da TV não são locais adequados para alimentar-se. O momento da refeição é coletivo. A mesa, com as pessoas da casa juntas, conversando, é um momento de convivência necessário para a formação da criança. O cuidado com o preparo do alimento, o cheiro da panela no fogo, do bolo assando no forno, sentar-se à mesa para comer com a família são atitudes saudáveis para o corpo, para o bolso e para o coração.
Contos e histórias
É muito importante que os adultos contem histórias para as crianças. Contos de fadas, lendas, histórias que vocês ouviram de suas avós. É preciso deixar um pouco a TV e ao menos na hora de dormir, abrir o baú de lembranças e de encantamento para compartilhar com as crianças. As belas histórias ajudam muito a criança em seu desenvolvimento, fortalecendo-a para enfrentar as situações da vida.
Histórias da vida
É importante a criança conhecer a sua história e a de seus familiares. O nascimento, as primeiras palavras, os eventos emocionantes ou engraçados devem ser relatados para seu filho. Pensando nisso, a escola irá realizar um trabalho em que os pais irão compartilhar conosco estas histórias. Os alunos levarão para casa algumas tarefas para os responsáveis responderem e devolverem para a escola. Este é um trabalho sobre a vida como um processo em constante transformação. Já vimos o nascimento das borboletas e iremos mostrar como ocorre o desenvolvimento e nascimento do ser humano. Não tem o enfoque da sexualidade, mas para a criança descobrir a magia e o mistério da vida. A participação da família é muito importante para que a criança não se sinta excluída deste processo. Pretendemos que compartilhando e conhecendo suas histórias, sinta-se fortalecidas como pessoa e como grupo.
Comprar não é amar
A mídia instiga criança a querer sempre mais coisas, fazendo cm que acredite que não ter este ou aquele brinquedo significa que não e amada. Se os pais entram neste jogo acabam passando para a criança a idéia que o mais importante é ter coisas, não importa de que forma. Cuidado, pois a criança pode se tornam uma pessoa que não mede conseqüências diante de um desejo, já que os pais se sentem na obrigação de satisfazê-los sempre. Isto é muito prejudicial para o futuro do seu filho.

CRIANÇAS DE CORPO E ALMA FAZEM O MUNDO MELHOR.

Do quintal de casa à cidade vertical

Frei Betto*

Pertenço à última geração que, nas grandes cidades, morava em casa com quintal, um pedacinho do Jardim do Éden. Seu desaparecimento equivale à expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Sem quintal a infância já não é a mesma.

O quintal era o espaço ecológico da casa. Criança, nele eu identificava um misto de minifloresta e parque de diversões. Subia em goiabeira e mangueira, brincava no chão de terra, promovia com os amigos corridas de minhocas e caramujos, colhia verduras da horta, andava descalço, bancava o Tarzan, tomava banho de torneira, construía rios, diques e represas nas poças deixadas pela chuva.

Agora, o mundo encolheu. A especulação imobiliária suprime quintais, as famílias vivem encaixotadas em apartamentos decorados com flores artificiais. Poucas crianças veem ovo de galinha abrir-se para deixar sair o pinto, cadela dar à luz, tartaruga arrastar-se pesada entre os arbustos do canteiro, restos de alimentos serem aproveitados como adubo.

O quintal era o espaço de brincadeiras. Ali nossa fantasia infantil desdobrava-se em cabanas no alto das árvores, gangorra dependurada no galho, minipiscina improvisada na velha caixa d’água. Dali empinávamos pipas e ali brincávamos de amarelinha, bolinha de gude, bentialtas (embrião do futsal, com dois jogadores de cada lado na disputa por um bola de meia).

Nós mesmos construíamos os brinquedos. De consumo, apenas ferramentas, pregos, papel, tesoura e cola. O resto provinha de nossa criativa imaginação e capacidade de improviso.

Brincar não é próprio apenas da criança, é próprio da espécie animal. Golfinhos, baleias, macacos, cães e gatos adoram brincar. Adultos brincam ao escolher vestuário, decorar a casa, dançar e participar de jogos. A dimensão lúdica da vida é imprescindível à nossa saúde física, psíquica e espiritual.

Violenta-se uma criança ao impedi-la de brincar. Refém da TV ou da internet, ela transfere seu potencial de fantasia para os desenhos que assiste. Como se a TV e a internet tivessem a incumbência de sonhar por ela. Reprimida em sua imaginação, tal criança se torna, na adolescência, vulnerável às drogas. Por não usufruir da fantasia na idade adequada, passa a buscar o universo onírico através de substâncias químicas.

Todo viciado em drogas sofreu uma infância sonegada -pela parafernália eletrônica, violência ou carência- e teme se tornar adulto, inseguro frente ao imperativo de adequar sua existência à realidade.

Hoje, brinquedos eletrônicos, videogames e o uso abusivo da internet privam crianças de uma infância saudável. Isoladas, não aprendem as regras da boa sociabilidade. Induzidas ao consumismo tornam-se ambiciosas, competitivas, invejosas. Enfrentam dificuldade em construir com as informações recebidas e os conhecimentos adquiridos uma síntese cognitiva.

Assim, não percebem a vida imbuída de sentido calcado em valores infinitos. Seu universo se atém a valores finitos, palpáveis, de exacerbação do ego, como beleza, riqueza e fama. Qualquer pequeno empecilho nessa direção causa enorme frustração. Tornam-se fortes candidatas ao consumo de antidepressivos.

O governo deveria incluir no plano diretor das cidades a obrigatoriedade de quintais em prédios residenciais. Talvez um dia se possa erguer edifícios de quinhentos andares, uma cidade vertical com tudo dentro: moradias, escolas, igrejas, supermercados, lojas, quadras de esportes, consultórios, serviços públicos e até crematórios. Ali trafegaria um único veículo, o elevador. Ao sair do prédio, os moradores entrariam em contato com a natureza em estado quase selvagem (observável de janelas e varandas), com direito a respirar ar puro e nadar e pescar em lagos e rios cristalinos.

* Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais

Presente obrigatório

12/03/2010

Por Rosely Sayão*

[…] POR QUE ALGUÉM IRIA SE PREOCUPAR COM O QUE DAR DE PRESENTE SE A PRÓPRIA PESSOA PODE ESCOLHER O QUE QUER?

A mãe de uma garota de cinco anos narrou uma situação que a deixou muito constrangida. Ela levou a filha à festa de aniversário de uma colega de escola. Ao saírem, a mãe da colega deu uma lembrancinha -essa moda pegou mesmo- para a menina como agradecimento por ela ter comparecido à comemoração. A filha olhou para o que recebeu e, rapidamente, disse: “Só isso?!”.

Outra mãe, cujo filho tem quatro anos, contou uma história parecida: no Natal, uma amiga dela levou um presente para seu filho que, ao recebê-lo, jogou longe e começou a chorar dizendo que não era isso o que queria ganhar.

Para complementar, um caso que considerei absurdo. Um casal processou uma loja de presentes porque ela não apresentou aos convidados todos os itens que eles haviam escolhido para sua lista e, por causa disso, eles ficaram sem alguns objetos que queriam ganhar.

Os presentes de casamento, aniversário, Natal e outras comemorações em que temos o hábito de presentear tornaram-se mais importantes do que a data, do que as pessoas e seus vínculos, do que a vontade de mimar alguém e manifestar seu carinho e tudo o mais que envolvia o ato.

Presentes, como bem ilustram os casos citados, transformaram-se em obrigação, encomenda, em expectativa que não pode ser frustrada. Abdicamos da surpresa de receber ou de dar um presente, da sensação gostosa ou do desagrado que se tem ao descobrir o que ganhamos em nome da praticidade.
Afinal, dá trabalho, custa tempo procurar um presente que tenha algum significado para a pessoa que iremos presentear, não é mesmo? E, depois de tudo, ainda correr o risco de não agradar? Não queremos riscos nem tampouco compromisso.

Por isso surgiram as listas: de Natal, de casamento, de aniversário, de chá de bebê… E quem faz a festa, afinal, é o comércio, que inventou até o vale-presente. Por que alguém iria se preocupar com o que dar de presente se a própria pessoa pode escolher o que quer?

Do jeito que a coisa está, acho que ganhar presentes pode até se transformar em um meio de sobrevivência. Assisti a um filme, que nem era muito bom, mas cujo roteiro era exatamente esse: dois jovens que se conhecem decidem simular um casamento somente para ganhar presentes e ter, com isso, uma renda extra.
Os mais novos talvez nem conheçam o sentido original do presente. E, já que temos reclamado tanto do consumismo exagerado que ensinamos a eles e também da nossa falta de tempo para tudo -inclusive e principalmente para o convívio familiar e com os amigos-, pode ser essa a hora de começar a retirar o caráter utilitarista e impessoal do presente e dar a ele o valor afetivo que merece.

Uma atitude desse tipo gera consequências, é bom saber: dedicação, tempo e, acima de tudo, compromisso com as pessoas com quem temos e cultivamos um vínculo amoroso. E, ao contrário do que aprendemos a pensar, viver bem tem tudo a ver com esse tipo de presença, não é verdade?

*Rosely Sayão é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (ed. Publifolha)

O consumismo na sexualidade infantil – Maria Helena Masquetti

“Vocês não imaginam a que tive de me submeter. Tenho um corpo de 18 anos, mas uma alma velha”. Este é um dos depoimentos de uma adolescente citado no plano do Comitê Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil em referência ao Relatório da CPMI 2004. Discutindo a questão, o Jornal Estado de S. Paulo publicou dados, do mesmo comitê, nos quais São Paulo aparece como o penúltimo Estado em número de denúncias sobre abusos sexuais contra crianças e adolescentes. Uma das hipóteses levantadas para isso, na matéria, é a de que a precariedade da atuação da rede pública na identificação e solução dos casos desestimula os cidadãos a denunciarem.

Isto faz pleno sentido com tudo quanto se sabe sobre os descuidos com a infância. Porém, merece atenção uma outra provável razão para o baixo número de denúncias: a banalização da sexualidade e da violência pela comunicação mercadológica e pela mídia em geral. Quem já não viu na TV uma apresentadora perguntando a uma criança pequena exposta ao seu auditório: “Você está namorando?” E quem já não ouviu uma celebridade apelar, em um comercial de maquiagem para crianças: “Fique linda como eu!”. Sem atentar para a gravidade do abuso, assistimos, sem denunciar, a este atropelamento explícito da infância.

O impulso sexual, se não for devidamente administrado, pode provocar graves estragos. No entanto, quanto mais se encurtar a infância a fim de transformar rapidamente a criança em consumidora, menos tempo ela terá para desenvolver as barreiras psíquicas necessárias à contenção do instinto. E quanto mais ela for convencida de que a felicidade está nos produtos e serviços anunciados e não em seus próprios valores, mais fácil será trocar sua genuinidade por uma “pedra falsa, um sonho de valsa ou um corte de cetim”, tal como diz a música.

Infelizmente, ajudamos a banalizar a sexualidade quando elogiamos o comercial onde mulheres representam garrafas de cerveja servidas às dúzias. E perdemos a noção do horror quando achamos graça no comercial de celular onde uma garotinha de sete anos discute sua relação amorosa. A experiência do amor e da proteção são fundamentais para o desenvolvimento do sentimento de empatia. Colocar-se no lugar do outro é primordial para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana. O futuro de nosso planeta depende disso.

Diferentemente do desencanto que demonstra a menina citada no começo deste texto, temos que dar às nossas crianças razões para chegarem aos dezoito anos sentindo na alma todo o frescor dessa idade e o desejo de replicar o respeito e a proteção.

Jornal da TardeA opinião de, 31/12/2009

5 Respostas to “Adulto também aprende”

  1. Maria de Lourdes Caroli Rocha 23/04/2010 às 1:54 am #

    Adorei, muito esclarecedor. tirei uma cópia para eu trabalhar com esses temas.
    Muito obrigada.
    mãe

  2. Maria do Carmo 24/07/2010 às 8:14 pm #

    Adorei o vídeo e os textos, assisti com meus filhos, eles gostaram e conversaram sobre o tema.
    Cristina, continue disponibilizando este tipo de leitura para nós pais e professores, elas são preciosas.

  3. Geny 11/05/2011 às 8:03 pm #

    Oi Cris,
    Muito bom seu material. Adorei!

    Como faço para conseguir a síntese do filme “Criança a alma do negócio e os filminhos exemplificando os excessos.
    Beijos Geny

    • ceu emei milton santos 13/05/2011 às 3:10 am #

      O filme completo você liga para o Instituto Alana e o resumido você baixa do youtube.
      bjs

  4. cilene ferreira de mello 23/01/2012 às 1:55 pm #

    olá meu nome é cilene tenho uma filha de 4 anos, que ira p emei, gostaria de agradecer desde ja atenção que vc´s mostram pelo site os cuidados com os nossos pequenos, pois muitas das vezes deixamos a criança na escola, com medo,receio pois temos que trabalhar e ao mesmo tempo ter alguem um lugar seguro e que possa ensinar algo a mais p educação de cada criança, logico que isso é obrigação de cada responsavel, porem, ja fico feliz em saber esse cuidado antes mesmo da minha pequena ir ate vc!!!! desde ja agradeço atenção e carinho que este ano de 2012 seja repletos de alegrias como os outros anos!!!!

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